Esta semana visitando o Vale dos Vinhedos e a região dos Apromontes foi possível verificar como vai indo a safra 2009. Para os que apreciam visitar esta região é um período especial, o vale todo cheira a uva. É maravilhoso passear pelas vias e acompanhar os vinhedos carregados ao lado, caminhões e tratores indo e vindo carregados de uvas prontas para serem esmagadas e vinificadas, é incrível, mas parece que até mesmo o asfalto cheira a uva fermentada do mosto que escorre das caçambas. Vale à pena conferir. No entanto, o que mais chamou a atenção era o fato de que em alguns vinhedos os cachos ainda estavam à espera da colheita, enquanto do outro lado da rua os vinhedos já estavam limpos, a colheita já havia sido antecipada! E não está se fazendo aqui uma comparação entre uvas brancas e tintas, onde o período de colheita é mais distante, mas sim de uvas da mesma variedade. Mais ainda, enquanto algumas vinícolas já estavam iniciando a vinificação, outras ainda estavam pensando em esperar mais uma ou duas semanas para colher a mesma variedade de uva, na torcida desesperada de mais algumas horas de sol e possivelmente uma pausa na chuva constante que assolou este verão. Conversando com alguns enólogos e agrônomos na tentativa de compreender melhor este processo, é possível chegar a algumas conclusões. Primeira, infelizmente, a safra de 2009 não será uma safra boa. Isto é um fato. Por mais que todas as vinícolas digam que ainda dá tempo de melhorar a qualidade das uvas no vinhedo, de que as uvas estão chegando com uma boa qualidade na cantina, este ano foi cruel, o excesso de chuva próximo à época de maturação e colheita acaba por inchar muito os grãos e diminuir a concentração de açúcar, gerando um vinho mais diluído e menos estruturado. Isto não significa que não haverá bons vinhos, a qualidade de uma safra muda muito de uma micro região para outra e uma condução adequada na cantina pode fazer muito pelo vinho final, mas com certeza não se terá vinhos como em 1999, 2002, 2004 ou 2005. Outra lição importante é a de que mesmo em safras excepcionais, como a de 2005, o ano pode acabar por ser ruim para muitos produtores. Em 2005 aconteceu um ano singular, onde o calor e seca foram constantes durante quase todo o ciclo da videira. Do ponto de vista técnico isto deveria ser maravilhoso, a videira deveria ter de lutar e sofrer para conseguir seus nutrientes, este stress hídrico produziria uvas maduras e vinhos potentes e evoluídos. Contudo, muitas vinícolas não estavam preparadas para este extremo, não possuíam estrutura adequada para conseguir amenizar este excesso de calor e falta de chuva, consequentemente muitos de seus vinhedos acabaram por maturar em demasia produzindo uvas quase pasteurizadas no pé. Isto pode ser notado em muitos vinhos daquela safra com sabor e aroma de fruta cozida, quase passada, muitas vezes dificultando até mesmo a identificação da tipicidade de uma determinada casta. O ponto final é a necessidade cada vez maior de uma perfeita condução do vinhedo, as vinícolas terão de modernizar-se cada vez mais com o intuito de preparar-se para os anos duros e atípicos, seja com excesso ou falta de chuva, calor de mais ou insolação de menos, e com certeza, com as mudanças climáticas dos últimos anos, com o aquecimento global tão discutido atualmente, estes anos serão cada vez mais freqüentes. Afinal de contas, após um ano inteiro de trabalho duro, com as uvas já colhidas e prontas para serem vinificadas na cantina não existe milagre que possa ser feito com uma matéria-prima de baixa qualidade.
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