Adão Oliveira - Um olhar atento sobre a política do Brasil.

  • 28
    jul.

    Ana e seu império

    Brilhante diretor de redação de O Globo e, depois, de jornalismo da Rede Globo, Evandro Carlos de Andrade, previa, no fim dos anos 80, que as mulheres tomariam conta dos principais espaços da mídia e, logo, das redações. Ainda eram poucas. Eu lembrava de Ana Amélia Lemos e de Tânia Carvalho, na RBS e, antes, na TV Difusora. No próprio Globo trabalhavam, em posições destacadas, Tereza Cruvinel e Miriam Leitão, colunistas de Política e de Economia, mais uma editora de Economia e outra do caderno feminino. Na TV Globo, se lembro bem, Belisa Ribeiro ou Lílian Wite Fibe pontificava como comentarista de Economia. O império masculino ruiu em 20 anos. Em Brasília, a redação do Correio Braziliense é chefiada por Ana Dubeux e a sucursal do Valor Econômico por Rosângela Bittar; Tereza Cruvinel preside e Helena Chagas comanda o jornalismo da empresa estatal de comunicação criada por Lula; Sílvia Faria dirige a redação da TV Globo; Teresa Azevedo chefia a produção da TV Bandeirantes. E dá-lhe colunistas: Denise Rothemburg e outras no Correio Braziliense; Eliane Cantanhêde, na Folha de São Paulo; Dora Kramer, no Estadão e na BandNews; Painel, a principal coluna da Folha de São Paulo, é de Renata Lo Prete, enquanto a mais importante coluna de Economia do Estadão é de Sonia Racy. Mariza Tavares dirige o jornalismo de toda a rede CBN; Lucila Soares chefia a sucursal de Veja no Rio. E há outras e outras e outras dando as cartas... Aqui convivemos com Rosane Oliveira e Lurdete Ertel, na Zero Hora; Taline Oppitz e Denise Nunes, no Correio; Beatriz Fagundes, em O Sul... Lembrei do saudável domínio feminino sobre os principais espaços da mídia e, em alguns casos, das redações, ao ler em Zero Hora uma nota em que Ana Amélia me atribui o conceito de “competente jornalista”. Foi mais um ato generoso, entre muitos com que Ana Amélia me honrou. Porque há muito tempo aprendi que competente mesmo é ela, Ana Amélia Lemos, precursora da espécie rara de jornalistas multimídia e professora da multidão de repórteres, comentaristas e colunistas, homens e mulheres, do Rio Grande do Sul e de fora do Rio Grande do Sul, que suam a cada dia de exercício desta profissão de loucos.

    Comente!

    Comentar Preencha o nome. Preencha o e-mail. Preencha o comentário.

    Comentários postados

    Ainda não existem comentários postados.
    Comente ao lado e seja o primeiro.

  • publicidade Pmpa
  • 27
    jul.

    APENAS UM VERSO

    Os funcionários dos hotéis de Salvador criaram - ou foram orientados a usar - uma expressão comum para alertar o turista sobre o risco (sempre imenso) de ser assaltado ao se afastar do prédio. "Não é bom", eles dizem. Ir a um bar ou restaurante a 150 metros do hotel? "Não é bom". Caminhar pelas praias em horários de pouco movimento? "Não é bom". Andar à noite em qualquer direção e por qualquer distância? "Não é bom". Pelourinho? "Lá é bom". Fui ao Pelourinho e entendi: lá é seguro porque encheram os becos de guardas, policiais e delegacias. Menos de 100 metros fora do centro histórico, a a passagem providencial de um táxi evitou que um bando me assaltasse. O domínio das ruas por criminosos está alastrado por todas ou, no mínimo, quase todas as grandes e médias cidades brasileiras. Caminhar e mesmo circular em automóvel ou ônibus, sobretudo à noite, é uma prática imprudente de alto risco - algo como um convite ofensivo ou um desafio dos cidadãos aos assaltantes. Porto Alegre está assim. Cidade Baixa? Pegue um táxi. Moinhos de Vento? Táxi. Petrópolis? Táxi. Farrapos? Táxi. Parques e praças? Cuide-se de dia e não ouse à noite. É como se o justamente cantado pôr-de-sol de Porto Alegra marcasse o início de um toque de recolher diário, imposto às famílias pela bandidagem. Contam-se aos milhares os estudos produzidos no Brasil e no exterior sobre as causas que determinam ou favorecem o crescimento da criminalidade. Ótimo, mas, no caso brasileiro, eles são até dispensáveis. Todas as causas da criminalidade no Brasil estão associadas a uma única e abundante fonte. Chama-se omissão do Poder Público - federal, estadual e municipal. Sucessivos governantes federais e municipais se omitiram sob o pretexto de que a Constituição atribui competência aos estados para organizar e manter os sistemas de segurança pública. E sucessivos governantes estaduais se omitiram sob o pretexto de que era indispensável a ajuda financeira da União para bancar os serviços de segurança. Deu nesta anarquia traduzida pela transformação das ruas em patrimônio dos bandidos. "A praça é do povo", escreveu Castro Alves. Em Salvador, como aqui, essa proclamação é, cada vez mais, apenas um verso.

    Comente!

    Comentar Preencha o nome. Preencha o e-mail. Preencha o comentário.

    Comentários postados

    Ainda não existem comentários postados.
    Comente ao lado e seja o primeiro.

  • 10
    jul.

    Outra espécie

    A libertação de Daniel Dantas e oito comparsas pode ser classificada com qualquer adjetivo. Mas só alguém que viva em sonhos pode qualificá-la como surpreendente ou estranha. Muito pelo contrário. Até o horário de concessão do habeas corpus - fim da noite - era previsível à luz de algumas tradições nacionais. Surpreendente e estranho foi, por exemplo, o fato de a polícia conseguir que Dantas e o bando mais próximo a ele ficassem quase 24 horas na cadeia - uma eternidade para a categoria e outros personagens que se esforçaram, como aqueles que formaram fila diante dos microfones do Senado, para transformar a prisão numa violação ao Estado de Direito. Menos recentemente o país fora brindado com outra surpresa, originária do mesmo ambiente: a negação de habeas corpus para Salvatore Cacciola. Este ex-banqueiro está reclamando, mas é óbvio que sabe de sua situação desfavorável. Conhece, especialmente, a regra que estabelece que o único crime realmente condenável de um banqueiro é falir. Para os demais, ainda que sejam muitos, sempre foi, é e será possível dar um jeito. Daniel Dantas, segundo os indícios e/ou provas que a PF tem exibido, confia no STJ e no STF. Tem ciência de que é ou imagina ser potencial beneficiário de uma espécie muito mais antiga, mas também muito mais eficaz, do que conhecemos como "foro privilegiado" - aquela malandragem produzida no Congresso para proteger autoridades acusadas da prática de crimes. Por conta do privilégio, mas por outras causas também, o Supremo Tribunal Federal não condenou nenhum dos réus das 130 ações penais que transitaram por lá, contra autoridades, no período de 1988 a 2007.

    Comente!

    Comentar Preencha o nome. Preencha o e-mail. Preencha o comentário.

    Comentários postados

    Ainda não existem comentários postados.
    Comente ao lado e seja o primeiro.

  • 09
    jul.

    Os súditos e as algemas

    Herácilto Fortes, senador pelo Piauí e quase inconcebível astro das oposições, foi o líder da bancada informal de congressistas que se empenhou em proteger o atual detento Daniel Dantas, durante a CPI dos Correios. Como duas ou três dúzias de deputados e senadores, deve estar apavorado agora, diante da hipótese muito provável de que seja escancarado o tipo de relação que mantinha com o banqueiro. Dantas é um veterano no uso de dinheiro para tráfico de influência e para corrupção. Entrou na pauta do jornalismo econômico na qualidade de gênio, entre o fim de 1989 e o início de 1990. Recomendado pelo ex-ministro Mário Henrique Simonsen, que o considerava brilhante, chegou a ser sondado ou convidado por Fernando Collor para participar do ministério. Pela versão mais difundida, preferiu permanecer na iniciativa privada. O jornalismo policial, que cita Daniel Dantas há mais de uma década, deixa claro que ele misturou os dois ambientes. Não é o primeiro nem será o último a fazer isso, mas é, com certeza, um dos mais graúdos que a Polícia Federal já algemou. No primeiro mandato de Lula, Dantas foi o pivô da única disputa realmente importante travada no então chamado núcleo duro do governo. José Dirceu se interessava em favorecê-lo, enquanto Luiz Gushiken trabalhava para enfraquecer o banqueiro. Pouco valorizada e divulgada à época, essa briga foi um dos elementos originais do escândalo que se tornou conhecido por mensalão. Dantas sabe tanto e pode usar isso contra tantos que sua presença na CPI dos Correios transformou-se numa novela de muitos capítulos. Governistas e oposicionistas temiam o que ele pudesse dizer. Não disse coisa alguma - como é próprio de personagens de seu ramo e de sua espécie. Enfim, o homem está numa cela da PF. Ouvi hoje, de um motorista de táxi, cinco minutos de elogios à Polícia Federal pela prisão de Daniel Dantas e também de Naji Nahas e Celso Pitta. Ontem vi e ouvi o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, invocando o Estado de Direito para criticar mais uma vez o comportamento da PF. Não é estranho que a Polícia Federal tenha mais prestígio do que o Judiciário.

    Comente!

    Comentar Preencha o nome. Preencha o e-mail. Preencha o comentário.

    Comentários postados

    Ainda não existem comentários postados.
    Comente ao lado e seja o primeiro.

  • 08
    jul.

    NOVES FORA NADA

    O Rio Grande do Sul teve governantes ótimos, bons, maus e medíocres. Mas jamais algum ingênuo ocupou o principal gabinete do Piratini e não há indícios de que isto esteja ocorrendo agora. Como não é ingênua, a governadora sabe que, ao patrocinar e/ou alimentar essas conversas de "refundação" do governo, de "carta-compromisso" e outras pérolas do gênero, está patrocinando e/ou alimentando uma empulhação - um nhémnhémnhém do tipo enganoso e, portanto, nocivo à sociedade. O único gesto realmente importante que Yeda Crusius tem a adotar, diante do que reconheceu como "crise ética" de seu governo, é expulsar os ladrões próximos e ajudar a polícia e a Justiça a levá-los para a cadeia. O resto é conversa fiada de quem não quer ou não pode fazer o que deve. A menos que patrocinem, além de tudo, uma revolução de conceitos, a governadora e seus aliados sabem muito bem que, diante da gravidade das circunstâncias em que estão metidos, "refundação" do governo e "carta-compromisso" são iguais a nada.

    Comente!

    Comentar Preencha o nome. Preencha o e-mail. Preencha o comentário.

    Comentários postados

    Ainda não existem comentários postados.
    Comente ao lado e seja o primeiro.

publicidade

Tamanho da fonte

  • A+ Aumentar fonte
  • A- Diminuir fonte

Traduzir Texto

Perfil

Adão Oliveira é jornalista e comentarista político.

Continue lendo
DZ Estúdio