Adão Oliveira - Um olhar atento sobre a política do Brasil.

  • 01
    mar.

    Trepações Adoidadas

    Durante os depoimentos na CPI dos Correios,conhecida como Comissão do Mensalão, num passado, não tão distante,  surgiu a história de uma cafetina, dona de um bordel, em Brasília, que organizava festas, patrocinadas por Marcos Valério, o carequinha mineiro, com belas mulheres e muita bebida, Os menos avisados firam escandalizados ao saber das traquinagens cometidas pelos representantes do povo.

    Ora, menos, não há motivo para tanta indignação.

    Essas festas sempre aconteceram no centro do Poder. Nas noites de Brasília, quando os parlamentares estão por lá, há sempre uma grande movimentação envolvendo as “moçoilas casadoiras’`”. Muitas delas são acompantes eventuais outras, no entanto, são inclusive swervidoras do Congresso que, para variar, aproveitam as horas vagas para dar uma transada com o próprio chefe: uma glória!

    Há poucos dias estive em Brasília e, para mostrar a profusão de garotas de programas que existe na cidade, fiz uma varredura telefônica entre aquelas que anunciam seus dotes e habilidades nas paáginas dos jornais, e que acabam nas camas dos parlamentares que lá vivem “solteiros”..

    A primeira, para quem liguei, foi a Nani, a adorável. Jovem, loira, 18 anos de belas curvas e me identifico:

    - Oi, tudo bem? Sou jornalista, e preciso fazer um entrevista com você. Mantendo a privacidade. Do outro lado da linha uma voz serena, realmente jovem, me responde com educação:

    - Entrevista? Ah, não! Não quero não. E desliga o telefone.

    Vou ao segundo numero da minha lista de amantes profissionais extraida da edição de domingo dos jornais da cidade. Ligo para Allana, que se diz ninfeta, 18 anos, de belas curvas e aparência de 15, cintura fina. Do outro lado da linha atende uma voz jovem, nervosa, refletindo uma certa inquietação. Me identifico e digo das minhas intenções. Ela responde, quase me interrompendo:

    - Entrevista, é duzentos paus, cara.

    Tento argumentar, mas ela se mostra definitiva, arrasadora:

    - Ih não, pode pará. Cê acha que vou perder meu tempo com entrevista? Não me telefona mais, otário! E, estupidamente, bate o telefone.

    Engoli em seco, respirei fundo, absorvi a porrada e parti para outra tentativa.

    Este é o terceiro número que ligo. Aninha e Fernanda, atendem ao mesmo tempo. Elas anunciam, “ter ambiente”. Quando digo da minha intenção, a resposta vem rápida: “nada a vê’. Em seguida, desligam.

    Carla e Adriana não atenderam ao meu chamado. Deveriam estar trabalhando, fora de casa. Pelo anúncio, Carla se exibe de seios lindos e de corpo perfeito. Já a Adriana é mais ousada. Sabe tudo. 1m e 70 cm de altura. Se gaba do corpo divino e faz ‘serviço completo”. Mas, ela é exigente. Por ter condução e atender em hotéis, sua preferência se volta para “senhores finos”. Nada feito!

    E, lá vou eu. Toco outro número. O da ‘Bela Panterinha” - sapeca para suas horas vagas - como se anuncia. Ela atende, eu explico minha intenção e, ela ouve atentamente.

    - Sou um jornalista e quero conversar com você. É uma entrevista. Quero falar da tua vida, da tua profissão. Uma coisa respeitosa. Uma história de vida, humana...

    - Eu não sirvo prá isso, não!

    - Mas voce está se anunciando pelo jornal... argumento, na tentativa de mostrar que a reportagem poderá lhe trazer mais resultados.

    - Mas, eu não estou interessada, tá legal? E, desligou, traduzindo desconfiança no tom de voz.

    Mudei a preferência. Passei a buscar na minha varredura, pessoas que eu imaginava - pelos anúncios - mais experientes. Passei a procurar mulheres maduras.

    Encontrei a Sara e a Mônica, “duas gatas” se dizem. Voltei ao telefone

    Atendeu uma das “gatas”. A voz denunciava uma mulher menos jovem das que, anteriormente entrevistadas. Ela me pareceu admitir a possibilidade de conceder a entrevista. Não sei se foi a Sara ou a Mônica. Ouviu a explicação e me pediu um tempinho. Segundos depois, retomou ao telefone dizendo que não era possivel. Argumentei e, ela mais uma vez, pediu para que eu esperasse. Veio a outra “gata”. Repeti o apelo. Ela foi insinuante, carinhosa mas, inflexível:

    - Ih amor. Olha, estamos há pouco tempo alugando esse apartamento e, se dermos entrevistas, “pode dá rolo”. Apelo, mas..

    - Olha temos muitos clientes para hoje e não temos tempo. Tenta outras casas mais antigas. Desculpa, mas não leve a mal, tchau e apareça.

    Fiquei agarrado ao telefone me questionando. De quem elas tem medo. Da policia, do gigolô, do cafetão, do locador do imóvel, ou da família? De quem?

    Comecei a perceber que as garotas de programa ao mesmo tempo que que se ofereciam através de anúncios pelos jornais, evitavam mostrar a cara, procuravam se esconder. Desconfiei que mexia em alguma coisa que cheirava mal,

    Eu já estava quase desistindo da reportagem, porque não era essa a idéia, quando, em meio a outras tentativas, atende uma das garotas. Gata Mansa, é o seu codinome. Me explico e, ela logo me alerta, de que estou tratando de coisa séria mas se mostra disposta a falar. Marcamos um encontro. Ao chegar, encontro uma mulher madura, fala mansa. Bonita, olhos de gata, lindissimos, alta, belas curvas, cabelos compridos, bem tratados mas com pele e dentes a denunciar maltratos de uma vida dura.

    Pausadamente e, com voz rouca, inicia a conversa “as garotas de programa são vitimas da sociedade repressora e preconceituosa. A moça do interior que recebe lá, os apelos de consumo, não consegue andar na moda que a Globo dita, através das novelas, e vem para a cidade grande trabalhar. Chega aqui, não encontra emprego e acaba caindo na mão de uma cafetina”. E prossegue:

    -“Ai babaus! Comigo foi assim. Passei a atender para uma cafetina que tem uma rede de informantes - porteiros de hotéis - que funciona bem paca”. Perguntei-lhe como funcionava. “-Assim, oh! O hóspede chega e o porteiro, sutilmente, enquanto pega as malas do carro, oferece-lhe uma acompanhante. De acordo com a caracteristica exigida pelo hóspede - alta, magra, morena, olhos verdes, cabelos compridos, dentes bonitos etc. Ele telefona para as cafetinas , e, meia hora, uma bela garota chega ao apartamento do turista para satisfazer o cliente.

    Nessa jogada, todo mundo ganha. Todo mundo leva. O hotel, por que cobra apartamento para casal e as despesas extras que a acompanhante é “orientada” a fazer. Ela, chega no apartamento pedindo um “scoth” para quebrar o gelo. E... lá vai grana! Uma carteira de cigarros. E, depois de tudo um jantar, é claro. Portanto, o hotel ganha com isso. O porteiro que foi o intermediário da transa, também leva. As vezes ganha por três. Do hóspede, da garota e da cafetina. A cafetina é a que, do bolo, fica com a maior parte, O gigolô - que se apresenta como namorado, ganha muito dinheiro com as garotas. Ele satisfaz suas vaidades com presentes finos, roupas, jóias, dinheiro e até carros. Bem vestido, com as grifes da moda, ele circula em belos carros, freqüenta bons restaurantes e acaba fazendo o jogo do namorado traído. A menina, coitada!, é a que mais se sacrifica e a que menos ganha nessa sacanagem toda”.

    Depois de ouvir esse relato, pergunto pelas garotas que não fazem parte desse circulo: as que trabalham por conta, não atendem para as cafetinas. Tem telefone, ambiente...

    - Ai é foda! Elas inicialmente são perseguidas, discriminadas. É dificuldade prá tudo. Primeira coisa que as cafetinas dizem é, essas garotas não cuidam da saúde, não fazem exames ginecológicos periódicos... E, isso se espalha pela rede de informações. Com isso os clientes que, na maioria é turista, hóspedes de hotéis, não têm acesso a essas moças/ Elas não lhe são oferecidas. Mas, antes disso, a dificuldade maior é encontrar um lugar para morar. Ou elas acabam morando com outras companheiras ou tentam alugar apartamento. Aí é uma barra! Não tem avalista. Quando tem, não tem quem alugue. E só a imobiliária desconfiar que a pretendente é garota de programa para aparecerem toda uma série de dificuldades. Quando tudo parece resolver a policia descobre e estoura o ‘ambiente”. Bordel, não, entram gritando. Mas, às vezes, em troca de sexo, isso é contornável.

    Gata Mansa interrompe seu depoimento e sai da sala. Aliás, uma sala como de resto o apartamento, muito bem decorada, revelando bom gosto. Volta com cigarros. Me oferece, não aceito. Não fumo, respondo. Mas, sem constrangimento ela acende um. Vai até o som e enche a sala com um CD da Natalie e do Nat King Cole, Unforgetable. Cria um clima, chego até a me entusiasmar quando, displicentemente, ao cruzar as pernas, dá pra ver que ela não está usando calcinhas. No gesto insinuante percebo que a moda lançada pela estonteante, Sharon Stone, no filme “instinto Selvagem”, pegou. Pelo menos, entre as garotas de programa.

    Ainda perturbado com o que via, não perdi a deixa:

    Não usas calcinhas?, perguntei-lhe.

    Sem se perturbar, Gata Mansa, arrumou o cabelo, que lhe caia sobre o rosto, tragou profundamente o cigarro, soltou a fumaça, e com um olhar tentador, Iascou:

    - É para facilitar as coisas!!!

    Percebendo que estava me deixando embaraçado, dissimulou com uma sonora gargalhada, me trazendo a realidade.

    Comporte-se, ouvi. Era a voz do meu anjo. De outro lado, “vá fundo”. O meu diabinho, sempre querendo me “botar em fria”. Segui a primeira sugestão. Ajeitei-me na poltrona e com ar circunspecto, reconduzi a entrevista.

    - As outras meninas não estão usando calcinhas? perguntei...

    - Pois é, disse-me, é que aquele filme que fez sucesso por ai. Aquele das “Trepações Adoidadas”. Deixou o “homerio” alucinado, e as garotas não podem perder a oportunidade para impressionar os clientes. Agora é moda. Espero que as menininhas da sociedade não façam isso prá não nos fazer concorrência.

    E, nova gargalhada.

    O meu “felling” indicava que dali não sairia mais nada. Pelo menos, em relação ao depoimento. A parte teórica, daquela aula de vida, já tnha se esgotado. Como não me interessava a parte prática - pelo menos naquele momento - cortei o papo ao ver sobre o balcão de bebidas, um balde e um quebrador de gelos. Quebrou o encanto, despedi-me, saindo apressadamente.

    Deixei prá traz uma mulher experiente que sabia tudo da profissão que abraçara. Deu a vida por aquela vida e daquela vida não levara nada. Simplesmente, nada. Grande, Gata Mansa!

    Já é outro dia!

    Depois de um longo trabalho de convencimento, estou chegando ao “covil” da Dominadora. Confesso que estou ansioso, tal a expectativa criada para esse encontro. Foram tantas as recomendações... Não pode vir acompanhado; fotógrafo nem pensar, gravador não pode ser usado. E, nada do que for dito pode ser anotado. Vale a memória. Mesmo assim, topei.

    Estou, como já disse, diante do ambiente da dominadora. Toco a campanhia, dou dois passos atrás e me preparo para ser recebido por uma “mulherona”. Quando a porta se abre, sou surpreendido por uma “baixotinha, de bundinha arrebitada e peito grande”, que não assusta ninguém. Numa fração de segundo me tranqüilizo. “Essa baixinha não domina ninguém, penso. Passado o impacto, fui me dando conta do quadro montado. Tranquei um sorriso. A minha frente, uma mulher vestida toda de preto, “scarpin, meias, short e blusa de cotton, provocantemente aberta, abrigava seios enormes, desproporcionais às suas outras medidas. E no rosto? Pasmem... Uma máscara de gatinho escondia grande olhos negros.

    Exatamente o que havia de bonito na ‘Dominadora”.

    Entrei, começamos a conversar e eu percebi seu sotaque só confirmado depois que ela me ofereceu um cafezinho acompanhado de rosquinhas. Tratava-se, sem dúvida, de uma mulher mineira. Café tomado, ela convidou para conhecer o apartamento. Tudo muito simples. Dois quartos. Em um deles, ao invés de móveis, ela montou um ambiente mais parecido com um tatame do que qualquer outra coisa. Ali, era o ‘matadouro”, como ela mesma chamava. Seus clientes são recebidos ali, depois de quebrarem a cerimônia na sala.

    Mas, quem são esses clientes da “dominadora”?

    A decoração da parede era de arrepiar. Chicotes de vários estilos. Quadros com cenas de sado-masoquismo, enfeitavam ou enfeiavam (como queiram) as paredes. Tara pura. Cinto de castidade, coleiras, porretes, algemas, cordas grossas, vendas negras para os olhos, máscaras de terror.

    Enfim, um ambiente de gosto - no minimo discutivel. Quem assistiu “Historie D’O” sabe...

    Seus clientes são recebidos ali, depois de uma “sessão de amassamento”, É uma massagem sem métodos, na base da porrada’, explica.

    Depois disso, já excitado, o cliente é levado - já na base do chicote, para a “sala de operações”, onde tem essa espécie de tatame. Ao chegar na porta, a baixinha dá um empurrão no sujeito. Ele cai - se atira - sobre essa espécie de colchão que cobre toda a extensão do quarto.

    - Ai o bicho já tá doidinho, doidinho. Nesse momento é que ele joga as suas taras prá fora. Muitos deles nem querem saber de sexo. Eu tive um cliente que ficava na posição fetal, enfiava o dedão da mão esquerda na boca e com a outra se masturbava. Fazia isso deitado no meu colo. Eu lhe dava palmadas na bundinha. Um outro só transava depois que eu o xingasse de tudo quanto é nome. Ele entrava comigo dando chicotadas no ar. Fazia um ar de menino assustado e corria bem lá pra aquele cantinho. Tirava a roupa e se acocorava. E, eu procurava todo o tipo de palavrão que existia e lhe dizia no ouvido. Esse fazia o gênero coitadinho. Mas, na hora de transar... O homem era um monstro. Insaciável. Mas, precisava, antes de tudo, ser bem desmoralizado.

    - Engraçado, né?, pergunta.

    - Muito, respondo, sem nenhuma convicção.

    Perguntei por outros casos. Ela foi desfilando tipos que impressionam. Um, gostava que eu montasse nele e batesse firme. Tipo cavalo. Um outro, eu tinha que arranhar como se fosse uma gata.

    - Ah! e o Arlequim. O Arlequim era romântico, fantástico. Era um sujeito famoso, politico, o...O nome não, interrompi rapidamente, mas ela acabou dizendo. Fiquei surpreso. Não imaginava o... naquele tipo.

    Ela prossegue:

    - “Ele chegava aqui em casa todo disfarçado, às altas horas da noite, depois de percorrer os restaurantes da moda. Na mão, uma bolsa. Na bolsa, imaginem o quê? Uma fantasia de arlequim. Ele, me chamava de máscara nega. Entrava, ia pro banheiro, e vestia a fantasia de arlequim. No toca-discos, a gente botava um disco antigo que ele trazia. Era uma marcha rancho de carnaval que dizia assim: “agora chora, pierrot, é tua sina. A sina de um pierrot, é chorar por colombina”.

    E, ele ficava dançando aqui, com os braços prá cima, como se isso aqui fosse um imenso salão. Eu, na sua frente, dançava graciosamente. Depois de dançar várias vezes a mesma música, ele sentava aqui no meio e chorava abraçado num vidro de lança-perfumes vazio, que guardava como relíquia de um passado tão marcante em sua vida. Dava pena de se ver. Depois, como chegara, saia. Só, com a sua dor. Esse cara, me dava uma enorme depressão. Eu só conseguia me recuperar, quando o via, na televisão, dando entrevistas com uma firmeza e uma convicção impressionantes.

    Mas, tinha outros tipos. Um homão que hoje é muito rico, que é “viado enrustido”. Esse, gostava de vibrador. E o gatinho? O gatinho era ótimo. Ele trabalhava no Rio, mas vinha toda a semana em Brasília. Ele era do governo e mandava no... (autarquia extinta). Já era velho. Era um sujeito engraçado, e muito boa pessoa. Tomava umas e se achava um gato. Um gatinho. Eu tinha que “andá rosnando atrás dele”. Era viúvo e não tinha medo que eu o arranhasse. Já morreu! Coitado do Dr.. gente fina! É isso ai.

    Já cheio de casos, encaminhei a entrevista para o seu final perguntando à “Dominadora”, como ela analisava estes seus clientes.

    - Doentes?

    -“Isso eu não sei responder. O meu negócio é satisfazer as taras desses caras, dando porrada neles. Agora, se são doentes ou não, isso é problema dos médicos”.

    Depois de falarmos de sua vida pessoal, de onde nascera, como viera para Brasilia e quanto ganhava com seu trabalho, assuntos que não tive permissão de publicar, tomei mais um cafezinho com rosquinhas e rosquinhas. Ao descer as escadas pensei, em voz alta:

    “O Sheakspeare tinha razão. Entre o céu e a terra existem coisas...”

    MC, é uma bela mulher! Vinte cinco anos de vida livre. Filha de gente da classe média carioca. Bem tratada, toda bonita. É alta secretária de gente grande do governo. Mulher de dois “P” como costuma dizer. Pura, no trabalho. Puta, na cama.

    Eu soube dela, através da Gata Mansa, que me disse que as garotas de programas estão sofrendo concorrência desleal, de “garotinhas gente fina” que trabalham no comércio ou no governo durante o dia, e à noite, aceitam encontros sigilosos. Estas - disse a Gata Mansa - são mulheres caixa alta. Só transam cinco ou seis vezes ao mês, ganham uma enorme duma grana e quase nunca passam o fim-de-semana por aqui. Estão sempre viajando, fazendo turismo. As vezes acompanhadas, outras vezes não. Moram em belos e bem equipados apartamentos. Seus carros são sempre os do ano, vestem na moda. Com discrição. MC. éuma delas, disse-me entregando um cartão de visita.

    Depois de muita conversa, consigo convencê-la a falar prá mim. E, agora, cá estou eu diante dessa deusa.

    - Não é por nada, não, mas tenho a impressão de conhecê-la...

    - É possivel, responde-me com ar esnobe.

    - Vamos conversar..

    - Aceito, interrompe-me, mas só vou falar o necessário, reservando o direito de só responder as perguntas que me interessam.

    - Entrevista sob condições? questiono.

    - Se quiser é assim...

    - Vamos lá! respondo.

    - É ping-pong?

    - Nome?

    - M.C

    - Profissão?

    - Secretária...De uma alta autoridade do governo.

    - Ora, proponho, vamos deixar dessa estória de pingpong, é muito chato.

    - Tá bem, você me merece confiança. O que é que você quer saber?

    - Quero saber se é verdade que a noite você faz ‘programas”?

    - É, sim. Faço programas com quem quero, por amor e, com quem posso, por dinheiro. Nessa ultima condição, eu faturo uma grana poderosa para levar esse padrão de vida que você está vendo. Ou você acha que com o salário do meu cargo eu poderia ostentar tudo isso ai?

    Concordo com ela. Mas, isso não lhe compromete? Ora, não tô nem aí. Eu “dou” porque gosto de “dar”. Sexo prá mim não é complemento, é vital. Eu não vivo sem sexo, mas não chego ser ninfo. Eu tenho meus parceiros certos. Com todos tenho prazer mas, por poucos tenho tesão. Por quem não tenho tesão, ainda que tenha prazer na relação, eu transo por dinheiro. Com quem eu tenho tesão eu chamo para transar. As vezes, o cara nem tá esperando. Ele chega muito louco e a relação passa a ser intensa. Várias vezes durante uma noite. No outro dia, cedinho, estou lá na minha mesa de trabalho com a seriedade que a função merece. Não dou espaço prá ninguém. Trato todo mundo com carinho e educação mas, respeito é bom. Uma vez, uma mulher que trabalha numa agência de publicidade, - não sei como é que ela soube - me jogou um verde, dizendo que a noite havia sído intensa, etc e tal. Dei-lhe um corte que a deixei desconcertada. Por ironia do destino, certa noite nos encontramos numa festinha intima, na suite de um dos 5 estrelas da cidade, transamos. Ela é uma tremenda sapatona1 De mulher, eu também gosto.

    Logo em seguida MC acende um cigarro, me oferece uma bebida e cruza as pernas. Lembro-me da Sharon Stone, no filme Instinto Selvagem e pergunto:

    - Usa calcinhas?

    - Claro. Sou uma mulher de respeito. Tá achando que eu sou a mulher daquele filme? Uso calcinhas e não tenho quebrador de gelos”. (gargalhada).

    - Os chefes, algum dia, tentaram...

    - Eles não são loucos. Eu os trato com a maior cerimônia.

    - E os executivos que visitam o ministro?

    - Alguns são muito gentis, que me dão presentes por amizade. Afinal, faz tantos anos, que os conheço. Toda a vez que solicitam audiência eu sempre dou um jeitinho. Nossa relação não passa disso.

    - E os lobistas?

    -Ah!... esses caras que parece que têm muito, mas não têm nada? Esses são trapalhões. Eles acham que o dinheiro compra tudo. Não tem classe. Quem tem grana mesmo não bota banca. São cavalheiros!

    - De onde você tira os seus parceíros, então?

    - De qualquer lugar. Basta dar “tesão”. Das, em principio.Eu tenho transado só com gente que não freqüenta o meu local de trabalho. Mas, nem sempre isso dá certo. Uma vez o ministro recebeu um cara à tarde. À noite, eu sou chamada para uma festa. Chego lá, quem eu encontro: o cara. Mas, eu não “dei prá ele”. Ele tentou de tudo mas não levou. Semanas depois ele voltou ao Ministério e usou de falsa intimidade comigo. Dei-lhe um chá de banco pra ele aprender a me respeitar.

    - Qual foi o caso mais engraçado que aconteceu com você?

    - Ah! Foi uma vez. Eu estava transando num hotel. De janela aberta. De um outro hotel em frente, tinha uns caras na janela espiando. Não tive dúvidas.... Quando parei de transar. Subi na cama, aparecendo na janela, nuazinha, corpo inteiro. Fui aplaudida. O cara que tava comigo queria morrê! Eu tava de porre1

    No dia seguinte, achei uma vulgaridade, baixaria mesmo.

    Mas...

    E, as festas do Marcos Valério, hein?

    Ih! Tô fora. Deu, teu tempo esgotou... passe bem!!!

     

     

     

     

     

     

     

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  • 12
    mai.

    Um encontro inesquecível: a torturada e o torturador

    José Sarney presidente do Brasil.
    Em nível interno, Sarney estava muito preocupado com a falta de apoio no Congresso. Abrir diálogo com a sociedade organizada foi à solução encontrada. Em nível externo, Sarney montou um programa de viagens para mostrar ao mundo a que veio.Isso era muito importante. Afinal o Brasil estava saindo da ditadura para a Democracia e ele era do partido que apoiava a ditadura.

    A primeira viagem do presidente José Sarney foi ao Uruguai.
    Foi um escândalo.

    Lá, depois de uma cerimônia no Congresso Nacional, ao pé da escada, e a cerca de dois metros de onde eu estava, a atriz e recém eleita deputada federal, Beth Mendes, que fazia parte da comitiva presidencial, reconheceu no adido militar da embaixada brasileira, o coronel-de-exército, Brilhante Ustra, um de seus torturadores, ao tempo em que esteve presa no Doi-Codi, em São Paulo.

    Foi o que bastou. Não fosse Júlio Maria Sanguinetti, o presidente uruguaio à época, amigo de Sarney, o incidente ganharia na imprensa internacional mais espaço do que os acordos assinados que, convenhamos, nada que merecesse destaque. Mas, não foi.

    Ajustes na agenda, feitos de última hora, recuperaram o encontro.

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  • 07
    abr.

    O Barbeiro que controlava a inflação

    Em 68, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) resolveu oferecer um grande banquete, no Copacabana Palace, ao presidente Costa e Silva. Tomás Pompeu, presidente, Zulfo Malmann, vice-presidente e, Fagundes Neto, secretário do governo Aureliano Chaves e candidato da Arena ao Senado, por Minas, contra Trancredo, foram ao Laranjeiras convidar o presidente.

    Costa e Silva, diante de uma mesa inteiramente vazia, com uma velha e amarrotada pasta creme em cima. Abriu a pasta, tirou de lá de dentro uma folha de papel almaço com um risco no meio de um lado escrito à mão "abril" e do outro "maio" e, de cima a baixo, uma fileira de nomes de gêneros de primeira necessidade: feijão, arroz, farinha, carne, pão, ovos, óleo, manteiga, leite, etc. E começou a falar:

    - Os senhores precisam ajudar o governo a combater a inflação. Nesse negócio de inflação ninguém me engana. Eu controlo a inflação todo o dia, de manhã e de noite. De inflação sei tudo. Aqui, neste caderno, vou anotando dia a dia os preços.

    - Mas o senhor faz isso pessoalmente? Deve dar muito trabalho, toma muito tempo do senhor.

    - Não toma não. É meu barbeiro que faz por mim.

    Na saída, Zulfo estava em pânico:

    - Estamos perdidos. Se é o barbeiro dele que cuida da inflação, quem será que cuida do resto?

    Dois dias depois houve um banquete. Dois mil empresários, discursos, aplausos e elogios uma noite inteira

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Adão Oliveira é jornalista e comentarista político.

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